sexta-feira, 7 de março de 2014

A Estamina

Não dá para fazer alguma coisa bem feita por muito tempo. É como correr, você corre por uns dez minutos e antes disso já está morrendo. É como em algum jogo, você tem uma barrinha de estamina e ela vai se acabando. Para cada coisa que você faz tem uma barrinha. Conforme o tempo passa essa barrinha vai se esvaindo e você vai ficando um lixo nessa coisa. Por sorte podemos fazer muitas coisas e para cada uma delas à uma barrinha. Quando se cansar de correr pode descansar e comer alguma coisa. Quando a barrinha da comida esgotar, pode ir jogar algum jogo idiota ou conversar com alguém sobre qualquer coisa, depois que essas barrinhas acabarem você volta pra casa e vai dormir, ou sei lá, pode ler um jornal ou qualquer outra coisa antes de ir dormir. Talvez ficar na internet como um imbecil. O problema disso é que às vezes a barrinha acaba e você nem se dá conta. Então é como se você estivesse correndo sem perceber. Esse é o problema das drogas, na verdade. Elas te amortecem e por causa disso você não sente que sua barrinha acabou. É como se você continuasse correndo e correndo e correndo louca e desgraçadamente por aí sem perceber que está sentindo dor, que os músculos da sua perna estão produzindo ácido sulfúrico. Você simplesmente não percebe e corre até se acabar. Alguma parte do seu corpo pifa. Se seu coração não pifar suas pernas quebram, os músculos se dilaceram, sua pressão cai e você desmaia. Mas que alguma merda dá, isso é inevitável de acontecer...
Quando você vive em uma monotonia isso significa que você vive alternando entre as mesmas duas ou três barrinhas, isso também é um problema porque elas estarão sempre em baixa aí você começa a pensar que o que está em baixa é a sua vida. Mas a barrinha da vida é bem mais duradoura do que a dessas porcarias que você pode andar fazendo por aí... Por isso é bom termos o máximo de barrinhas que pudermos, alguém assim nunca está de saco cheio ou com tédio.

Caramba, virou mó reflexão isso aqui, e eu só queria reclamar!

quinta-feira, 6 de março de 2014

Um exercício literário

Tem uma casa amarela na minha rua. Ela me faz pensar. Não que casas amarelas sejam o tipo de coisa que me fazem pensar, mas esta casa em especial me faz pensar. Não que nela more uma bruxa ou alguma coisa do gênero, nada disso, ela é só uma casa amarela. Térrea. Não tenho a menor ideia do que tenha dentro dela. Às vezes vejo um velho entrando ou saindo dela. Aqui na rua onde estou moram muitos velhos. Acho que ninguém gosta de morar aqui, por isso só os velhos que já moravam aqui antes, quando era um lugar agradável, permaneceram por aqui. Difícil imaginar aqui como um lugar agradável. O que mais vejo pela janela, além da casa amarela, é miséria. Miséria de tudo. Miséria material, intelectual, sentimental. Vejo casas miseráveis ao longe e perto também. Existem algumas árvores que foram envolvidas pela miséria. As casas menos miseráveis são casas hipócritas. Elas apenas aparentam serem menos miseráveis, mas basta ver qualquer pessoa que more dentro dela que tudo muda. Não que seja um problema a hipocrisia em si, o problema é o que ela tenta esconder, não há nada de errado na hipocrisia em si. Aliás, ela é algo necessário para a convivência saudável entre as pessoas. As pessoas são malucas, juro que são... Elas não suportam que outras pessoas sejam diferentes delas, por exemplo, se eu falo pra alguma pessoa tatuada que eu nunca faria uma tatuagem, ela acharia isso um absurdo, começaria a perguntar se eu tenho medo que doa ou algo parecido. Se eu falasse que não faria porque não gosto da ideia, aí a coisa fica preta. Porque ela vai achar que eu tenho que achar a ideia legal só porque ela acha. E se não achar a ideia boa é como se eu achasse a pessoa inteira ruim só por causa da droga da tatuagem. E o pior de tudo é que eu não acho. Não acho mesmo, eu até gosto de algumas. Principalmente as tatuagens dos meus amigos. Gosto mesmo delas, de verdade. Só não me sinto confortável com essa ideia quando se refere à mim. O que acontece é que todas as pessoas ficam fingindo serem todas iguaizinhas por causa disso. Umas querem agradar as outras parecendo iguais, aí o que acontece é que vemos um bando de falsos todos fingindo serem iguaizinhos. Iguais uma ova. Duvido que exista uma pessoa sequer no mundo que pense igual à outra pessoa. Isso é impossível. Eu gosto da ideia de um mundo onde as pessoas aceitem as diferenças. As diferenças são maravilhosas. Aliás, é exatamente por causa das diferenças que estamos vivos até hoje, pois se não houvessem diferenças genéticas em determinada população, a evolução não funcionaria de jeito nenhum. A natureza tem um conceito diferente de evolução. Para a natureza sobreviver é evoluir. Para a gente evoluir é melhorar. Não vejo melhora nenhuma em manter-se vivo. Mas essa diferença é importante e é sempre importante lembrar dela, evita certos conflitos idiotas.
Agora a pouco ouvi um barulho de batida de carro, não foi muito alto, mas também não ouvi uma freada muito brusca. É um problema quando a freada não é brusca pois ela absorve boa parte da energia que pode ser usada para esmagar o corpo do motorista contra a lataria do carro. Quando olhei pela janela vi que quem havia se envolvido no acidente era uma moto e um carro. Quando olhei tinha um motoqueiro mancando tirando o capacete e indo sentar na sarjeta, enquanto outro estava parando sua moto. Motoqueiros são uma raça muito unida, sempre que um cai todos os outros param para ajudar. Não importa quantos tenham. Se tiverem quatrocentos motoqueiros em uma avenida e um deles cai, todos os quatrocentos param para ajudar. Acho isso fantástico. O mundo seria melhor se todos tivessem essa característica dos motoqueiros. Afinal, todos somos humanos antes de sermos motoqueiros ou qualquer outra coisa. Mas acho que se todos fossem motoqueiros o trânsito fluiria bem melhor. Acho que o acidente quebrou sua moto, pois ele parecia muito indignado. Era triste ver. O mais triste é que eu reparei isso por causa da sua expressão corporal inteira. Não era possível ver seu rosto em detalhes pois eu estava longe, mas seus gestos mostravam claramente que ele estava indignadíssimo. Não acho que ele tenha se machucado muito, ainda bem, motoqueiros estão sujeitos a se machucarem absurdamente. Não sei se eu teria uma moto. Acho que se tivesse não andaria pela cidade. Pelo menos não como um louco costurando por entre os carros. Procuraria caminhos sem carros, mesmo que este caminho fosse três vezes maior. O que eu gostaria mesmo é de viajar por aí com uma moto. Eu iria até o México com uma moto. Sempre quis uma imersão cultural na terra dos nossos irmãos latinos... Antes eu achava espanhol uma língua esquisitíssima, mas aí eu ouvi uma mulher cantando em espanhol e eu fiquei alucinado. É impressionante como algumas mulheres têm a capacidade de mudarem completamente nossa visão sobre alguma coisa. Isso pode ser um problema, na verdade. Principalmente se ela faz você ter uma visão diferente sobre ela mesma... Pelo menos antes de você saber quem ela realmente é. Isso pode custar uns dois anos da sua vida. Talvez se você for mais velho isso pode não significar muita coisa, mas quando você tem vinte e poucos anos isso representa dez por cento da sua vida. Eu não desperdiçaria dez por cento de uma pizza, quiçá de uma vida. É, mas tem coisas que acontecem que nos deixam completamente fora de controle. Aliás, a gente só pensa que tem controle sobre alguma coisa, na verdade não temos controle coisa nenhuma. Acho que temos menos de dez por cento do controle de tudo. Os outros noventa por cento são gerados pela interação do seu corpo com o ambiente. Aliás, pensando assim acho que é bem mais do que noventa por cento. Não temos controle de coisa nenhuma, essa é a verdade, só pensamos que temos.

Na verdade, hoje, eu comecei a escrever só para ver se eu ainda consigo escrever alguma coisa aleatória começando um assunto sobre uma coisa nada a ver. Acho isso um bom exercício. Isso indica que a pessoa está sempre preparada para escrever sobre qualquer coisa. Acho que todo mundo deveria fazer este exercício, é muito divertido. Você olha pra qualquer coisa lá fora, pela janela, ou qualquer outra coisa, pode ser um copo de leite, uma sujeira na parede, uma privada, um telefone, uma melancia... QUALQUER COISA. Então você começa a escrever sobre essa coisa. Quando começar a escrever, inevitavelmente você vai pensar em milhares de coisas relacionadas com isso. Então você escolhe a mais legal e começa a falar sobre ela. Então vai começar tudo de novo, essa nova coisa vai te lembrar milhares de outras coisas... Então você terá um texto totalmente digressivo. Não é o tipo de texto que as pessoas mais gostem, elas provavelmente vão pensar que você é maluco, mas isso é bom como um exercício. Pensando nisso, acho que outro exercício muito legal é o desafio de juntar dois assuntos, por exemplo, você tem que começar falando sobre uma banana e terminar falando sobre engenharia aeroespacial. Um dia quero fazer isso. Bom, por hoje é isso. Escrever é um ótimo exercício. Ler também é. Preciso ler mais. Olha que desgraça, não consigo parar de escrever. Bom, fui ^^

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O taxista piradão

Essa história que eu vou contar pra vocês aconteceu de verdade. Um amigo de um tio meu tem um primo que conhece um cara que é um milionário piradão. E é a história desse cara que eu vou contar agora:
Era um cara que sempre gostou de dirigir, mesmo quando não sabia fazer isso, fazia em jogos de simulação de direção e outros. Seu pai era empresário e tendo ele como único filho o fez estudar economia e gestão de empresas, a final, quem iria gerir sua empresa de lingeries comestíveis após a sua morte?
Ao completar quinze anos passou a cumprir rigorosamente todas as infindáveis regras impostas por seu pai, que o ameaçava em por na internet o vídeo de quando ele o pegou se masturbando vestido de bailarina.
O tempo passou e nosso protagonista se tornou um verdadeiro empreendedor. Mas seu sucesso não foi devido à empresa de seu pai, mas a uma descoberta brilhante que proporcionou a criação de uma empresa gigantesca que o tornou multimilionário: Criou o "spray de pirlimpimpim" como o chamava. O que nada mais era do que um spray triplo, anti chama, anti adesão de qualquer sujeira e borrachudo. seu spray servia desde para impermeabilização de carpetes, de telhados industriais e até mesmo como preservativo.
Em seu pai não cabia tanto orgulho, porém algo muito perturbador estava por vir: Seu pai morreu de uma forte alergia no pinto, que se espalhou por todo seu corpo ao utilizar o spray que seu próprio filho criara. Muito perturbado, nosso protagonista estava sem rumo e não sabia mais o que fazer. Era dono de duas empresas agora que herdara de seu pai a fabulosa indústria das lingeries comestíveis, possuía todos os bens materiais e até alguns não muito materiais devido aos seu spray imperial de pirlimpimpim, possuía uma coleção de carros que nunca tivera o prazer de dirigir pois aprendera com seu pai que dirigir é coisa de empregado, mas não possuía nenhuma felicidade verdadeira, seu destino era incerto e sua angústia era infinita. Para ele sua empresa não valia mais nada, pois nada traria o seu pai de volta.
Foi então que uma conversa controversa que teve com um morador de rua mudou o rumo de sua vida por completo:

Mendigo: Cara, me vê um cigarro aí, cara!
Protagonista: Toma. - deu-lhe seu maço que acabara de comprar, mas já não sentia a menor vontade de fumar.
Mendigo: Qual seu problema cara?
Protagonista: ?
Mendigo: Eu pedi UM cigarro, qual é o seu problema, cara???
Protagonista:...
Mendigo:...
Protagonista: Ah! São tantos...
Mendigo: Qual o que? Você é um burguês de merda! Tem tudo o que quer! Até sua cueca é engomada! Se quiser comer, come o que quer em qualquer sentido que queira! Você tem o carro que quiser, se quiser alugar um helicóptero, aluga, se quiser alugar uma pessoa, aluga também! Você é a porra de uma pessoa que pode fazer praticamente tudo o que quer, mas em vez disso vem encher meu ouvido que já está quase entupido da mais fedorenta cera com essas suas palavras... burguesas!
Protagonista: Eu... Eu não entendo...
Mendigo: Não entende o que, porra?

Ele não entendia como o mendigo sabia que ele era rico e poderoso sendo que fizera de tudo para parecer maltrapilho, saiu de casa com as roupas de ontem, não se perfumou nem nada habitual.

Protagonista: Como você...
Mendigo: ?
Protagonista: Porque acha que eu sou burguês?
Mendigo: (cai às gargalhadas) Como assim? Você tem cheiro de burguês, você fala como burguês, você me olha como burguês, você anda, se move e gesticula como burguês. Você tem áurea de burguês. E, pelo amor de deus, você acha que essa calvin klein aí não é coisa de burguês? Qual é a tua, cara? Fugiu de algum sanatório? (cai novamente às gargalhadas)
Protagonista: ... bem... na verdade...
Mendigo: (interrompendo-o) ham? To esperando...
Protagonista: Na verdade eu... ganhei essa roupa de um.. Na verdade eu roubei ela e...
Mendigo: (estrebuchando no chão de tanto rir) Cara! Você é cômico! Você é a porra do burguês piradão mais teimoso e cômico que eu já vi! O que mais vai inventar? Esteve preso também?
Protagonista: ...
Mendigo: Oras... Fale a verdade! Vou te contar uma história. Quando eu tinha família, um primo de terceiro grau meu era piradão, assim como você. Um dia ele acordou e não levantou da cama. Quando seus familiares mais próximos o interrogaram, ele afirmou que estava morto. Disseram à ele que cadáver não fala e era pra ele parar de sacanagem e levantar logo. Ele respondeu que não estava falando, era uma transmissão psíquica de sua voz. Então falaram a ele que era pra ele parar de ser trouxa porque eles viam a sua boca mexendo. Então ele disse que a visão dele era uma transmissão também. A coisa foi ficando séria, eles perceberam que nada adiantava, chamaram outros familiares, chamaram benzedeira, chamaram padre, chamaram a porra toda de todas as religiões e macumbas possíveis para tirar o demônio qualquer que ele tinha. Por fim levaram ele no psicólogo. Um psicólogo de rua, ele era diferente... Ele era um cara que sabia das coisas... Ele virou assim pro meu primo e falou: "Cara, você não tá morto, vou te provar isso. Pensa no seguinte, morto sangra?" Meu primo respondeu: "Não" Então, esse psicólogo aí fez um cortinho no dedo do meu primo, com uma navalha, então meu primo arregalou os olhos como em uma epifania e proferiu o seguinte: "Caralho velho! MORTOS SANGRAM!"
Protagonista:...
Mendigo: Fala alguma coisa porra!
Protagonista: Nem sei o que dizer....
Mendigo: Ora, não se identifica com meu primo?
Protagonista: Porque eu haveria de me identificar?
Mendigo: PORRA! É exatamente o que você está fazendo, você vai manipulando os argumentos sempre de forma a agradar aquilo que você quer parecer. E você quer parecer que não é burguês. Mas caralho, tudo indica que você é a porra de um burguês safado pra caralho!
Protagonista: Tá bom.. Eu me rendo, eu sou burguês, contente?
Mendigo: É você quem deveria estar contente por ter conseguido se livrar de sua teimosia. A maioria das pessoas que eu conheci que tinham isso aí foram parar em um sanatório...
Protagonista: Bom, eu vou-me embora...
Mendigo: Caralho! Você não tinha um problema para me contar?
Protagonista: Não, eu tenho tudo, minha vida é perfeita porque eu sou burguês, lembra?
Mendigo: Mas que caralho! Como você é teimoso! Conta logo a porra do seu problema!
Protagonista: Não sei o que estou fazendo aqui perdendo tempo discutindo com um babaca...
Mendigo: UI! Você ofendeu agora! Fez dodói na minha alma! (e caiu na gargalhada novamente)
Protagonista: Até...
Mendigo: Porra! Volta aqui! Eu to gostando dessa discussão, você até me insultou! Tá certo que foi insulto de burguês, mas não deixa de ser um insulto... Conta logo seu problema! Ou o que você acha ou achava que era um problema...
Protagonista: Gosta de ser insultado?
Mendigo: Não é essa a questão... a questão é a dialética... Mas vamos deixar de conversa mole, conte logo o que te aflige!
Protagonista: Ah! É uma história meio longa....
Mendigo: Cara, eu sou mendigo, não tenho porra nenhuma pra fazer o dia inteiro, a semana inteira e o mês inteiro, se você me der cigarros o suficiente, eu posso ficar anos ouvindo o que você tem para me dizer. É essa minha função no mundo, ouvir o que as pessoas que estão na merda a ponto de notarem que eu sou uma pessoa têm para me dizer.
Protagonista: Eu nasci em uma família cheia de privilégios, meu pai era empresário e quando eu era criança....
E contou a história inteirinha ao mendigo, sem tirar nem por....
Protagonista: Então foi isso, depois que meu pai morreu me sinto angustiado e não sei que rumo tomar, não sei o que fazer com minhas duas empresas...
Mendigo: Cara, você é locão! Se eu tivesse uma dessas empresas aí, a menor que fosse, eu poderia comprar papelão e fazer um barraco mó style cara! Céloco!
Protagonista: Eu to tão de saco cheio dessas coisas que se você quiser pode ficar com uma delas.
Mendigo: Mas fala aí, cara, o que você gosta MESMO de fazer, além de bater umas bronhas locas vestido de bailarina na frende do espelho?
Protagonista: Eu não estava na frente do espelho...
Mendigo: Putamerda! A coisa é bem diferente do que eu pensava então... Pensei que você tivesse alguma tara por bailarinas, não por SER uma bailarina....
Protagonista: ...
Mendigo: Mas enfim, o que você gosta de fazer? O que te deixaria completo?
Protagonista: Ah! Eu gosto de dirigir! Sempre fui fascinado por isso... Aprendi a dirigir sem meu pai saber... Ele queria que eu nunca tivesse aprendido, dizia que era inútil e coisa de empregado...
Mendigo: Cara! Você tem a profissão errada! Porque você não é taxista em vez de empresário?
Protagonista: Nunca pensei nisso... Mas eu já falei que meu pai me obrig...
Mendigo: Mas o véio não bateu as cachuletas? Então foda-se tudo o que ele te ensinou, vende sua empresa aí e compra um táxi, cara! A hora é agora! Você acabou de nascer, sua vida ainda nem começou de verdade!
Protagonista: Hm... Interessante ideia...
Mendigo: Ideias valem um pãozinho? Eu to com fome, cara...

Foi assim que nosso protagonista passou a ser taxista empresário piradão. Ele deixou a empresa do seu pai com o mendigo que o ajudou a perceber que não era gente na verdade, mas uma mera extensão do seu pai e, agora que ele não existia mais, precisaria tomar seus rumos e comandar sua própria vida.
Mas ele não era um taxista qualquer, como gratidão ele pegou seu melhor carro, era um Volvo fosco pretão, o carro com mais cara de mal que alguém poderia ver, transformou-o em um táxi e saiu por aí pra pegar a galera. E, além do carro ser diferente, ele não cobrava pelo seu serviço. As pessoas se aproximavam timidamente, sem acreditar direito que era um táxi, mais para saber o preço que deveria custar.... Era meio assim:

Cliente: Cara, é real isso aí? Isso é um táxi mesmo?
Protagonista: E porque não haveria de ser? Não está escrito táxi? Pra onde vocês querem ir? O céu é o limite! Podemos ir para qualquer lugar! E precisamos fazer isso rápido! A vida é a gora, não temos tempo a perder, acabamos de nascer e a vida é muito efêmera para discussões desprovidas de fortes emoções!
Cliente: T-tá... Mas quanto custa?
Protagonista: Custar? Não custa nada! Entra logo aí! Eu preciso te contar freneticamente a história da minha vida, você precisa contar a sua, precisamos trocar experiências e precisamos fazer isso logo! Nosso tempo está se esgotando! Cada segundo que passa é um segundo a menos vivido! Entra aí cara! Eu nasci em uma família cheia de privilégios, meu pai era empresário e quando eu era criança....

sábado, 7 de dezembro de 2013

O mundo é assim mesmo.

Alerta: Essa é uma reflexão pessoal minha, talvez alguém possa não ter a mesma relação que tenho (e que desejo não ter) com a ideia de utopia.
Divirtam-se

Não importa o quanto de bosta sejamos obrigados a engolir todos os dias, o mundo é como é. E ele é imenso, complexo e incompreensível. Aquilo que entra em nossa mente formando nossa concepção de mundo é apenas uma fração insignificante do que ele é realmente. Isso significa que nunca (eu digo NUNCA!) iremos ter uma concepção realista do que o mundo é. O máximo que conseguiremos é formar uma representação tosca do que ele aparenta ser para nós. E além de ser uma representação tosca, muitas vezes é uma representação suja. Sujamos a representação de mundo com nosso ponto de vista interesseiro e limitado. Dizemos que as coisas estão erradas porque não agrada a nós. Por mais que este "não agrade a nós" signifique que não agrade a muitas pessoas, não nos agrada acharmos que o mundo não agrada outras pessoas também e é só. Pior do que tudo isso é quando alguém resolve projetar um sistema ideológico complexo (Não confundir com mudanças eficientes, imediatas e realistas), uma utopia. Aí cai o cu da bunda inexoravelmente. Cai até chegar no outro lado do mundo. Porque já não basta a representação da pessoa ser tosca e suja, ela quer mudar essa representação tosca e suja e projetá-la na realidade. Isso é o fim da picada. Isso é tão absurdo quanto alguém querer montar um outro universo baseado nas leis da física que conhecemos atualmente. O máximo que alguém vai conseguir fazer é um jogo estilo Angry Birds... O problema nisso é que estamos constantemente "utopificando" tudo o que vemos, vemos algo que não nos agrada no comportamento das outras pessoas e queremos mudar, queremos que elas se adequem, achamos que o mundo gira em torno do nosso umbigo. Mas não gira, nunca vai girar. Somos apenas unidades interesseiras como bilhões de outras no mundo e estamos fazendo exatamente o que todas as outras pessoas fazem: Buscando seus interesses pessoais. Somos engrenagens de uma imensa e inexorável máquina monstruosa. Acho fundamental abandonar a ideia de utopia, ela não passa de um romance. Ela torna nossa concepção abstrata de mundo, que já é extremamente tosca e limitada, algo distorcido. Ter em mente a ideia de utopia nos cega, projetamos nossa utopia em cada coisa que vemos, isso nos impede de ver com mais clareza. Se acho que alguém não deveria agir de uma maneira, minha noção de utopia crucifica a pessoa no mesmo instante eu não penso no porque ela age daquela forma, penso apenas que ela não deveria existir pois vai contra a minha concepção ideal e egocêntrica do mundo. Isso é um tipo de arrogância, acho eu. O que proponho é que tenhamos humildade suficiente para aceitarmos e entendermos o mundo do jeito que ele é, com toda a bosta que ele tem, com todas as coisas que são incômodas, com todo o chorume que verte dos poros das pessoas que convivem conosco todos os dias... Isso é fundamental para que possamos compreendê-lo de forma mais clara, pois a mudança não virá da parte que suja nossa tosca concepção de mundo, mas da complexidade da concepção que, por sua vez, virá da aceitação e da humildade. E essa concepção complexa nos permitirá que nosso esforço não seja em vão. Saberemos exatamente onde agir, exatamente o parafuso que deve ser apertado e a porca que deve ser afrouxada. A mudança será direta, será realista, será impactante, eficiente e imediata. Não adianta nada criar uma utopia e ficar forçando as pessoas a se adequarem a ela, por mais que seja edificada sobre idéias claras e bem fundamentadas, que seja complexa e bem articulada, por mais que faça completo sentido e agrade a todos: O caminho entre a realidade e a utopia não existe.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Um ano se passou

Me sinto uma barata. Me sinto um pedaço de pau podre e inútil. Um dia fora usado para montar a estrutura de uma linda casa na arvore, esta caiu, foi desmontada. E cá estou eu jogado em um canto qualquer, ao ar livre, apodrecendo... Sem ao menos uma lona esburacada para me proteger da umidade e da chuva.
Todas as experiências corroboram a verdade única, ou melhor, uma mentira velha que se incrustou na mente desde criança: "Você é o que você sabe, e o que você sabe é mais importante do que tudo o que você pode ter, fazer ou mesmo sentir, vale mais até do que seu próprio corpo. Pois o que você sabe nunca lhe será tirado." O que você sabe é tão efêmero quanto todas as outras coisas. Talvez até mais, se você fizer algo, pode durar mais do que a sua própria vida. Já seus pensamentos não... eles vão morrendo, murchando, sumindo...
Um ano se passou desde que saí do catavento, uma questão na fuvest era sobre o que eu explicava todo o santo dia, não lembrei... Um ano é suficiente para todas as coisas que você aprendeu sumam da sua cabeça. E sumam mesmo, não é branco, se fosse branco teria sabido logo depois da prova... Não tenho brancos em prova. Tenho com pessoas. Pessoas são tão intimidadoras para mim quanto as provas o são para as outras pessoas... Prefiro que elas escrevam no papel em vez de perguntarem para mim algo que eu possa me enganar ao responder. Mesmo algo decorado e idiota como o número do meu rg...
Um ano se passou e depois de sempre acostumado a ser bajulado por professores idiotas de ensino fundamental, não precisar estudar por mais de dois dias as coisas idiotas do ensino médio, nem precisar ir à aula fazem você acreditar que é e que sabe alguma coisa de verdade... Então vem a faculdade, a maioridade e a vida cobra que você saiba realmente alguma coisa que não está lá... Algo que você esqueceu... é como uma planta que você cuidou muito bem no passado e esqueceu dela... As pessoas perguntam por ela e você acha que ela está bem, acha que ela vive firme e viçosa sem precisar se preocupar com ela... Como uma máquina auto sustentável maluca. Mas não. Não é assim que as coisas funcionam. O tempo passou, enquanto estava buscando coisas idiotas e aleatórias ela estava lá, esperando pelos cuidados que não vinham, esperando por água, esperando por uma luz... Morrendo... E quase morreu.
Um ano metafórico se passou, mas na verdade, passou muito mais do que isso. No começo, sua atenção a ela era total, sua vida era ela, ela era a única coisa que tinha e que importava que você cuidasse (era, ainda é e sempre será). Atenção esta que foi cedendo lugar para outras coisas mais prazerosas e menos importantes que poderiam aparecer, e foram tantas... Mas o tempo perdido poderia não ter se perdido. O tempo perdido poderia ter sido muito bem dividido entre as duas coisas. o tempo perdido poderia não ter se perdido... Aquela planta que foi esquecida aos poucos, que foi se tornando seca e sem vida, que teve suas folhas já secas arrancadas por qualquer vento não representa apenas a inteligência, nem apenas a sabedoria, ela representa muito mais do que isso... Representa uma pessoa completa, representa a concepção desta pessoa sobre ela mesma... Esquecer isso é como se matar aos poucos no mundo das drogas, não tem muita diferença... Fugir da realidade jogando, se drogando, buscando sexo ou seja lá o que for é o mesmo fugir da realidade de alguém que se afasta de si mesmo. O problema está em fugir, não na busca das coisas em si...
Um ano é pouco, muito tempo se passou, e alguém está aí (aqui), tal qual um panaca sem saber para onde ir. O que fazer. Não sabe mais quem é, só sabe uma coisa: Não é o que pensava que era. É muito menos do que pensava que era. E muito menos do que poderia ser... É apenas um caderno velho cheio de lembranças boas jogado no fundo de uma gaveta mofada. Não, lembrar não é viver, não se iluda com qualquer merda que os ditados populares digam... Viver é muito mais do que acumular experiências boas em um caderno chamado passado ou memória. Viver é fazer, é lutar e conquistar... Viver é edificar seu cérebro para que se torne a máquina fantástica que você quer que ele seja, que ele resolva cálculos rapidamente, que ele saiba todos os teoremas e os axiomas, que ele jorre algoritmos quando precisar dele, que ele seja rígido como uma rocha nos momentos de tensão e de tristeza...
Mais, muito mais do que um ano se passou e a sua vontade de qualquer coisa pode ser comparada com a de um burro a correr atrás de uma cenoura presa nele mesmo: Busca inútil. Nem vê para onde está indo... Onde estão todas quelas coisas que você tanto sonhava quando criança? Onde está sua vontade de se tornar aquilo que queria se tornar? Onde se meteram as vontades? Elas estão longe, sim, estão, mas correr atrás de uma cenoura sem rumo pode (e vai) te distanciar muito mais... Ainda mais porque qualquer pessoa pode balançar uma cenoura na sua cara e te levar para onde ela quiser... E a culpa está longe de ser qualquer pessoa que possua duas (ou mais) lindas cenouras... A culpa é inteiramente sua de ser um imbecil cagalhão que se deixa levar por esse tipo de coisa. Lembre os velhos sonhos, lembre onde queria estar agora... E corra atrás disso como se não houvesse amanhã. Corra atrás do que você quer para a sua vida como se fosse morrer se não conseguisse. E realmente o vai... Do que vale a vida sem termos o que queremos conquistar? Melhor morrer tentando do que morrer correndo atrás de uma cenoura idiota...
Um ano se passou, passaram-se dez anos, e passarão muito mais do que isso, e eles serão anos de puro sofrimento se você não levantar dessa inércia agora e ir correndo buscar transformar o seu cérebro na máquina potente que você quer que ele seja. Vai ser fácil? Não, vai ser uma bosta, mas é o único caminho, não tem alternativa, só existe esta possibilidade, continuar ou morrer. Se não continuar estará se matando, morrer é não buscar transformar seu fantástico fpga encefálico no super computador que você sempre sonhou ter. Isso se faz com muita dedicação. O tempo inteiro deve ser o eterno querer... É a partir do querer que se faz qualquer coisa. Sem ele estaríamos inertes o tempo todo. O como conseguir é que vai sendo aprimorado, mas isso acontece naturalmente a partir do querer. Quando queremos, isso é inconsciente, o verdadeiro querer é inconsciente... Por sorte, mesmo o inconsciente tem uma profunda relação com o consciente... Mas tem também com nossos instintos, ou seja, ou você o convence daquilo que você quer realmente, ou ele vai seguir cegamente às suas cenouras pré-históricas... Entender como um cérebro funciona não é fácil, principalmente porque o entendimento parte dele próprio... Mas não precisamos entender ele como um todo, precisamos apenas de uns poucos mecanismos ligados ao aprendizado... É como aprender a linguagem de programação, é extremamente simples se comparada com a arquitetura de um complexo processador multcore... As pessoas geniais simplesmente conseguiram sacar esta linguagem e aplicar às suas vidas... Muitas vezes inconscientemente... Não estando nessa condição, nada impede alguém aprender conscientemente isso, programar-se a si mesmo e conquistar a configuração neurológica que sempre sonhou em ter... Tudo se resume em prazer no aprendizado, organização de dados, e revisões sistemáticas.
Bom, é aqui que eu entro em uma nova jornada em busca de transformar esse pé nojento de feijão em uma sequoia gigante e vai transformar a merda da minha vida em algo incrível de se ver.
Espero que isso motive alguém, principalmente alguém próximo, é sempre bom estar acompanhado nessa jornada compulsória e inevitável que é a vida... =D

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Recomecar

Após um ano sem postagens essa bagaça pode Recomeçar, tenho muito tempo livre no trabalho mas isso não significa que posso sonhar aqui dentro , não penso , não posso pensar livremente , tenho correntes que me prendem ao chão e não me permitem voar.
Tenho que obedecer as leis morais “impostas” por uma micro sociedade que não sabe dos próprios limites, funcionamento ou mesmo sequer uma idea do que ela própria faz. Impondo sua lei , ela inibe e coage acoes de livre iniciativa que fuja dos padrões , não posso fazer o que quiser , mas tenho de correr atraz do meu trabalho , caso contrario fico aqui , sem fazer nada , como estou , escrevendo neste mesmo blog.
Não tenho sonhado muito ultimamente , isso me faz muita falta , creio que esteja diminuindo minha capacidade de pensar , não tenho mais agilidade para raciocínio como antigamente , possuo apenas um corpo que controlo , apenas sou empurrado com a maré , não tento nem mais me direcionar para um lado ou para o outro , apenas fico aqui , sendo levado para onde os ventos estão indo . Outro dia necessitava de fazer um programa em C , simples , algo que faria em uns 2-3 minutos sem nenhuma dificuldade , estruturei todo o programa , entradas , saídas , deixei para ultimo o que me toma mais tempo normalmente , a inteligência do programa , ao me deparar com o problema , não consegui equacionar o problema , simplesmente era muito para min naquele momento , fiquei simplesmente parado por uns 8-10 min sem fazer nada , simplesmente olhando o cursor do editor piscar , como se o compilador estivesse decepicionado comigo por eu não conseguir fazer um coisa que uma criança de 15 anos faria com a mao nas costas. Enfim olhei para meu colega do lado , ele tinha feito , não que eu seja melhor ou pior em programação do que ele , é que sempre era ele que copiava de min , fiquei surpreso que ele saiba a matéria, a parte inteligente do programa eram apenas duas miseras linhas , DUAS LINHAS , apenas isso , e eu não fui capaz de pensar suficientemente para escrever duas simples sinhás , cada uma com uma equação , simples , não comparava nada , era matemática de 7ª serie , apenas um numero subtraindo de outro , simplesmente isso , nada mais....
Minha estrutura do programa estava melhor, não continha erros , mas a parte que realmente importava eu simplesmente não fui capaz de fazer , falhei.
Não gosto de ser superado , sou mesquinho e cuzão, todos somos um pouco assim. Mas me senti mal por min mesmo , eu era bom , agora não passo da media isso se conseguir alcançar a mediocridade.
A falta de sonhos me prejudica , creio que fique muito mais doente. Durante esse período que não tenho feito nada , tenho muito mais sinusite. Posso estar viajando mas a minha falta de sonhos pode estar relacionada ao LOL , maldito, vicio que cada vez me prejudica mais , estou até com dor no ombro direito de mexer tanto no mouse assim.
Minha constante interrupção ao fazer esse texto pode deixar coisas em aberto e dislexa , sem sentido algum. Não que qundo eu não seja interrompido ele fique coeso e coerente , mas talvez dessa vez tenha ficado pior.
Preciso ler alguma coisa nova , um livro bom. Novos ares.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Re:escrever

Pois é, 're:escrever', e porque não 'reescrever' sem os ':'? Não é tão difícil de explicar, mas também não é tão fácil.
Quando eu penso em reescrever algo, eu penso em consertar algum erro, ou pra ser mais franco mudar algo que já foi feito. Tudo bem, acho que qualquer um deve ter a mesma linha pra esse raciocínio, ou pelo menos parecida. E de fato é só nisso que eu penso quando eu tenho que reescrever algo, e nesse mesmo momento eu percebo que nada deve ser reescrito de fato. Pois é, até mesmo aquela questão dissertativa pilantra que apareceu em alguma prova em que só resta o famoso 'embromation' pra ser usado. Talvez, um talvez bem provável, se você soubesse o que escrever ao invés da palhaçada (sim, sempre é palhaçada tentar um embromation) que você deixou la no espaço que deveria estar vazio, você nunca saberia como é lembrar de algo que você poderia fazer melhor. 


Agora parece fazer mais sentido né? 


Mas onde entra o re:escrever? Se eu pudesse eu não reescreveria nada, mesmo que eu pudesse eu acho que deixaria o espaço em branco, não sei se eu iria me preparar mais pra não ter que usar de tanta criatividade pra algo tão trivial. Então é bem ai que entra o re:escrever, tudo (TUDO) que se tem pra ser reescrito ou refeito só existe porque existe algo que na sua, ou minha, concepção se encaixaria melhor com aquela situação.


Se você tivesse atravessado a rua e olhado mais de perto aquele pedaço de algum treco reluzente que nem te chamou a atenção, ou se você tivesse tentado escalar um poste pra ter uma visão melhor do fim do dia, você nunca iria entender o que eu estou tentando dizer. Esses exemplos e muitos outros são o que eu chamo de re:escrever. Re:escrever é aquela ideia que você não teve e nem vai ter pra mudar algo, porque sempre tem algo mais lógico pra se fazer quando você sofre uma ação. Calma, não vou começar a falar de 'sujeito e predicado', só quero lembrar que quando algo acontece de forma errada do seu ponto de vista você tenta imaginar algo melhor pra reescrever aquela cena, mas nunca pensa em re:escrever. Se você entrasse no metrô e conseguisse um lugar pra sentar (tá, tá...) talvez, (sim, talvez de novo) você nunca fosse imaginar que se você ficasse em pé nele ao invés de sentado sua vida seria re:escrita. Nesse momento eu mesmo estou imaginando como seria se eu fizesse isso, seria no mínimo engraçado (ou idiota, como preferir). Mas os impactos disso na sua visão do mundo seriam destrutivos. Se você fizesse algo assim seria a mesma coisa que saber da resposta da questão que estava em cima daquela (é, aquela la da palhaçada) e tivesse feito um desenho de uma borboleta.


Seria a mesma coisa que ter a opção de ter a vida que você sempre desejou do fundo da sua existência e ao invés de agarrar isso com tudo o que você tem, você simplesmente virasse e olhasse para aquele "pedaço de algum treco reluzente que nem te chamou a atenção".


Re:escrever é quase isso. Espero que você tenha entendido.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

ZL

Era onde havia a estação de metro mais bonita e tecnológica do mundo que ficava no bairro mais bonito da cidade. E lá era onde morava a pessoa mais bonita de todas... Lá tudo era mais bonito. Até a sujeira do chão era mais bonita. Os pássaros assoviavam clássicos de Vivaldi, o lixo tinha aroma refrescante. O céu era mais azul, o ar era mais puro. O crack não viciava tanto, além de ter cheiro de flores. Os mendigos de lá eram adoráveis! Sábios filósofos. Eram belos, simpáticos e cheirosos. Andavam por aí sorrindo para todos, tocando violino, distribuindo flores e dizendo “Bom dia madame!”. Todas eram madames por lá e isso era óbvio.

Os donos dos bares eram galantes cavalheiros, muito perfumados e elegantes. Nos restaurantes os garçons loiros e belíssimos serviam às pessoas cantando, faziam perguntas simpáticas e voltam para a cozinha saltitando e ainda entoando clássicos formidavelmente bem interpretados, assim como as garçonetes, apesar de apenas elas terem feições tão meigas acompanhadas por gestos tão suaves e delicados.

Nas alamedas os cães de rua, todos de raças como Buldogue Inglês, Pug, Bullmastiff, Rottweiler , Border Collie e Golden Retriever. Eles andavam agradando as pessoas fazendo truques e ajudavam os cegos a atravessarem as ruas, ajudavam as donas de casa a levarem as compras para o lar e eram recompensados com banquetes divinos das melhores carnes imagináveis pelos donos de restaurantes.

Nos supermercados as atendentes eram extremamente talentosas e eficientes, nunca havia filas. As nuvens eram de algodão doce, chovia caramelo de vez em quando, mas ninguém se melecava. Era um caramelo muito comportado que desviava das pessoas, caia no chão e, cuidadosamente, se dirigia para a canaleta de coleta de caramelo. Assim também fazia a água, o leite e as muitas diversidades de maravilhas provenientes do céu como licores, mel, sucos mais variados e iogurtes coloridos. Caíam do céu, vez por outra, bombons como “Sonho de Valsa” e “Ferrero Rocher”, entre outros.

As paredes de muitas casas eram de chocolates. As mais antigas poderiam ser adornadas pela única praga que por lá existia, eram baratas com cheiro de Glade. Mas se isso por acaso ocorresse, era só abrir a porta que no mesmo instante entraria uma ratazana psicodélica rosa com manchas laranja fosforescente. Uma música toca quando esses animais fabulosos estão por perto. São quase psicotrópicos audiovisuais ambulantes. Eis que o ratão entra e diz à barata cheirosa: “Posso deglutir-te, madame?” Ao que a barata responde: “Mas é claro!”. Eis que a rata Zana deita no chão, abre a boca perto do chão para que a barata azul e perfumada possa alcançar, ela entra, o rato fecha a boca dirige-se para a porta, faz uma ligeira reverência para a dona de casa e diz: “Até logo, madame!”. Obviamente o som de sua voz é telepático porque não é educado falar de boca cheia, por mais que seja cheia de um maravilhoso inseto cheiroso. Sai e fecha a porta suavemente atrás de si, termina de deglutir o inseto e é acometido por sensações fantásticas. Sente gosto de pêssego na orelha esquerda, sua calda é preenchida por aromas doces e inebriantes, sente surgir-lhe ao dorso uma orelha e por ela começa a escutar Jimi Hendrix ao mesmo tempo em que sente gostos de uvas do monte no lóbulo. Em instantes o chão se transforma em um ladrilhado de brigadeiros cheirosos. Sem perder tempo ela lambe toda a calçada até não sobrar nada de brigadeiro, e sim nuvens de algodão doce, por onde ela cai e cai... O céu azul por cima e por baixo... As nuvens tentam amortecer sua queda vertiginosa, mas tudo o que ela quer é cair no mar que é feito de groselha e ser resgatada por uma embarcação feita de biscoitos recheados. E seria deixada em uma ilha onde biscoitos pensariam que deus caiu dos céus. Os biscoitos a tratariam como rei, lhe servindo tudo o que desejasse, lhe construiriam templos de tortas multe-frutíferas, palácios de rocambole, teria baratas psicodélicas todos os dias... Ou a matariam impiedosamente por acreditarem que o criador é, por ser o criador, o motor de todo sofrimento das suas tristes e dolorosas vidas de biscoitos...

Quase todas as árvores dão dinheiro em vez de folhas, e o dinheiro é muito limpo e cheiroso, ideal para atividades higiênicas ao banheiro. Existem árvores que fornecem dinheiro umedecido, ideal para limpar superfícies sujas, coisa que não existia por lá, já que a poeira era muito bem comportada, ela se desgrudava das pessoas e das coisas e se encaminhava para o lixo calmamente. De noite quase sempre chovia chocolate, leite ou mel e de dia o clima era perfeito para pescar Tilápia nos canos da cozinha. Às vezes era tudo isso junto.

Na primavera as luzes eram mais luminosas, era como se todas as coisas e pessoas tivessem luz própria. As roupas eram coloridas e contrastantes, não era incômodo de se ver, como o verde limão ou azul piscina podem se tornar. Os pássaros voavam sem parar e assoviavam a prima Vera do Vivaldi. A alegria emana de todas as coisas. O som do vento nas copas das árvores. O verde das folhas por onde permeia a luz do sol, a sombra que este fascinante conjunto projeta na grama... Os esquilos voadores se divertem o tempo todo, os idosos jogam xadrez calmamente sob a sombra de um carvalho gigante. Os cisnes se deslocam suavemente flutuando sobre as águas mais puras e cristalinas existentes. Um casal de enamorados conversavam tranquilos sobre o como a vida é maravilhosa e seus planos para o futuro enquanto deslizavam sobre as águas do lago vistas de dentro de um pedalinho de cristal, por onde era possível ver através do piso transparente, as maravilhas aquáticas como peixes, algas aquarélicas, pepinos do mar de rio, águas vivas psicodélicas e elétricas que tornavam o lago de noite um fascinante show de luzes biológicas, cavalos riosos (uma variação formidável e raríssima de cavalos marinhos de água doce, só que bem maiores e mais coloridos.) saltitantes, esponjas do rio, lulas molúsculos (espécie raríssima também), entre muitos outros. Só no breve momento em que o silêncio se formou entre eles, no qual olharam um momento para baixo, foi possível ver uma lula interagindo com um golfinho, dois Guppy jogando sinuca, um Plati praticando remo submarino, três Molinésias patricinhas saindo de um shopping, lotadas de compras, quatro Borboletas Listradas discutindo sobre relações públicas em quanto tomavam café no lado de fora de uma taberna, alguns cavalos marinhos vinham a galope para saltarem para fora da água e sentir como o ar é gelado e seco... O som das crianças brincando no parquinho os fez voltarem para a superfície e olharem-se nos olhos.

As crianças nos campos vastos e garridos corriam distraídas. Umas conversavam sobre a cotação atual das jujubas, outras sobre a alta do brigadeiro ou sobre a previsão de queda dos preços das balas de goma e no que seria mais vantajoso investir suas mesadas. Outras se encantavam com borboletas gigantes que tinham perto de trinta polegadas de envergadura, outras observavam as inúmeras espécies de flores que por lá viviam. Observavam os crisântemos, as angélicas e o jasmim do imperador. Mas apenas observavam este último, de longe, pois era do imperador. Já o jasmim amarelo elas podiam cheirar e até tocar, o imperador não gostava de amarelo, elas pensavam... O jasmim estrela também podia, já que este também era amarelo... Havia ainda Artemísia, madressilva, ou Madre Silva? Begônias, zamioculcas “Que nome estranho!” Mas tinham mais estranhos, como a clerodendro que mais parecia um ébrio falando bobagem... Havia ainda rainhas da noite que desabrochavam de dia, afinal eram rainhas, desabrochariam até de baixo da água, não é mesmo? Algumas outras, ainda, observavam que já era possível ver saturno. Algum fenômeno não explicado até o momento fazia com que saturno aparecesse no céu maior do que a lua, sendo possível ver seus anéis com nitidez espetacular. Os satélites naturais de saturno giravam lenta e imperceptivelmente ao seu redor, enquanto uma brisa suave passava por entre as amoreiras depois de terem passado suavemente pelas parreiras e de ter carregado os esporos de muitos dos cogumelos coloridos que havia por toda a parte. O mais fascinante deles possuía bioluminescência em forma de espiral hipnótica, uma defesa natural contra diversos povos e animais que os usavam por seus poderes alucinatórios potentes. Não é mais preciso fazer um chá com ele, basta apenas olhá-lo por alguns instantes que se tem efeitos da mesma ordem que se teria caso se fizesse um chá bem forte com eles.

Por fim começava a escurecer, os pais das crianças que por lá brincavam já estavam levando seus filhos de volta para casa, estes, ansiosos demais para esperar, não viam a hora de chegarem aos seus lares, tomar um bom banho (“Pega essa redundância!”) e estudarem bastante, não porque a escola exigia, já que a escola não era obrigatória nem muito menos recomendada por lá, mas porque todos sabem (até as crianças) que “como a principal característica do ser humano é a inteligência (já que este não tem garras afiadas, não voa e muito menos corre) devemos ser os melhores humanos possível, ainda que não saibamos o motivo da nossa existência nem o que isso significa, e isso só será possível através de muito exercício mental, ou seja, muito estudo... não é isso, mamãe?” “É isso sim, Lucas” a mãe do garoto respondeu: “Agora vamos dormir que está tarde já, e temos muito ainda por fazer...”.

De dentro do quarto era possível ver a tênue luz que o Arco Íris da Vila, como era chamado, dissipava até umas duas horas depois do sol se por. Era um arco íris bem mais iluminado e possuía não sete, mas vinte e nove cores que se alternavam suavemente e por vezes se misturavam formando imagens abstratas, mas bem nítidas. Mais de noite, quando o arco se esvaía, no céu, quando não tinha saturno ou a lua para interferirem com a claridade, via-se a aurora celeste, outro fenômeno ainda não explicado, mas acredita-se ter o mesmo princípio o aumento de saturno, pois ambos eram possíveis de serem apreciados apenas naquela localidade.

Ao amanhecer, o som do mar e das gaivotas enchia o ar de alegria e de entusiasmo. O velho Bartolomeu cuidava do farol, onde vivia a mais de quarenta anos sozinho, depois de um amor mal sucedido. As embarcações luxuosas se preparavam para cruzar o oceano. Pela brisa a maresia era carregada enquanto todos do cruzeiro se preparavam para a viagem começar... De cima do farol, Bartolomeu podia observar tudo o que se passava até alguns quilômetros em torno do seu raio. Ele via as baleias coloridas saltitando da água enquanto mudavam de cor. Deveria ter algo no ar que fazia com que quase todos os animais, com o tempo, adquirissem a bioluminescência. Talvez tenha sido a usina...

Chegara a pouco o momento de o grande e esplendoroso navio Verde de Vontade partir. O som do mar batendo no casco era único. As pessoas que ficaram no porto acenavam com seus lenços Verde de Catarro para as do navio, que acenavam de volta e um suave burburinho de despedidas era formado. Muitos se emocionavam, mas todos da costa esperavam até o navio desaparecer abaixo da linha do horizonte para se irem. Por fim a grande buzina do navio toca assustando alguns peixes da água, fazendo com que estes saltem bruxuleantemente para todos os lados, alguns, inclusive, chegam a cair em terra firme, mas logo surgem pernas e começam a passear pela cidade assim como as outras criaturas todas. O navio se vai e o som que ele faz de vez em quando se reduz a nada, mas a visão de um pontinho ao longe perdura por um pouco mais de tempo, até ser um nada que some no horizonte.

O som do mar acedendo às pedras faz com que Bartolomeu se sinta mais jovem. Ele está se vendo como quando tinha treze anos, uma criança com vontade de correr por todos os lugares, conhecer todas as coisas, provar todas as comidas do mundo, conhecer todas as pessoas, ler todos os livros bons,... Experimentar o experimental... Experimentar o experimental... Experimentar o que for experimentável. Para que especular sobre o que não é experimentável? Bartolomeu é agora uma criança. Porém com menos suscetibilidade à escolhas coraçoginosas que lhe possam trazer sofrimento duradouro. Ele quer fazer tudo o que deixou de fazer durante toda a sua vida. Ele vai fazer tudo antes que acabe seu tempo. A vida é como um jogo de xadrez, ou você perde porque é incompetente, ou você perde porque o tempo acabou. Bartolomeu não era incompetente, comprovara isso quando era jovem. As coisas que aconteceram o levaram a parar, mas não mataram sua competência. Estava convencido disso.

Bartolomeu olhou mais uma vez para o mar, viu que o sol refletia nele e formava uma nesga dourada sobre o mar. Era a sua vez de estar vivo. Estufou o peito, apagou a luz do farol e saiu depois de cinco anos. A última vez que sairá foi para tratar um fungo que nascera em suas costas. Abriu a porta que dava para as escadas, sentiu-a ranger com a mão e com os ouvidos, era possível sentir o cheiro de madeira úmida entrando pela porta. Olhou as escadas de pedra, desceu pisando apenas nos degraus divisíveis por três, como a muito não sonhava em fazer. Estava decidido, agora era o momento. Iria agora mesmo ao banco pegar toda a fortuna que conseguira juntar quando era jovem, antes de ser traído por seu próprio coração... Ia e ia já. Viajaria pelo mundo, conheceria pessoas, ouviria e contaria histórias, provaria comidas típicas, faria todas as coisas que ainda lhe permitia o tempo. Sentiu finalmente a areia ainda quente sob seus pés, entrando entre seus dedos. O cheiro do mar perto da areia era diferente do cheiro que tinha lá de cima do farol, ele observara... Havia muita luz entrando por seus olhos semicerrados, para ele só significava uma coisa: A vida nova que estava por surgir. Aos poucos seus olhos se acostumaram com a luz e suas pernas se acostumaram com seu peso, aos poucos já ia podendo correr. Ele tinha que atravessar boa parte da praia ainda... O sol ia subindo no céu aos poucos enquanto saturno se punha sobre o lado oposto do mar. Estava ficando escaldante já. Estava na hora de aparecer uma sombra... Foi exatamente o que aconteceu logo após esse pensamento surgir em sua mente. Bartolomeu pensou: “Sô foda, digdim, digdim! Quer ver que a nuvem tem formato de batata doce?” Nisso ele olhou para cima e não pôde acreditar no que viu. Uma pena ver pela última vez e ainda assim não acreditar... O que Bartolomeu vira fora uma baleia que se materializara sobre ele e o esmagara poucos décimos de segundo depois que olhara para cima.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

ANdAr pElO ANDAR

Um prédio, um andar, um corredor e uma história. Ou o que resta dela. Um prédio antigo onde passamos os melhores momentos de nossas vidas. Um corredor daqueles que não ganha medalha, mas continua correndo parado. Um andar estranho. Estranho, porém gracioso. Um corredor que existia no primeiro andar. Era o corredor dos terceiros e dos segundos anos. Eu só fui conhecer aquele andar quando passei para o segundo ano. Aquele andar me agradava. E aquele andar também me agradava. Naquele andar tinha algo de luminoso, virando no final do corredor à esquerda. Isso se você já não veio de lá... Eram tijolos de vidro. Por eles passava a luz. Era um pedaço do corredor que tornava dois prédios apenas um. E tinha outro debaixo dele.

É de aquele andar que minhas lembranças sobre aquele andar tornam-se mais vivas. Aquele andar não era normal... Tinha algo diferente e inexplicável nele. A maioria dos andares balança de um lado para o outro, por mais incrível que possa parecer. Os prédios geralmente balançam por serem feitos de aço. São flexíveis. Aquele andar subia e descia. Não querendo dizer que os outros andares que iam de um lado ao outro também não subissem e descessem, não é isso, mas é diferente... E não era simplesmente subir e descer... Era mais do que isso. Era sutil e inexplicavelmente subir e descer. A maioria dos andares que eu já havia visto desde então ou ficavam parados, estes eram poucos, ou iam de um lado para o outro, algo quase vulgar. Um andar que subia e descia periódica, sutil e inexplicavelmente era totalmente não vulgar.

Ele era lento. Quase um andar de gato medroso, investigando se havia uma ameaça. Não era desajeitado. Era bonito de se ver. Demorava a percorrer o corredor. Era como se estivesse falando algo interessante. Algo que exigisse atenção. Não que fosse autoritário e roubasse a atenção. Toda a atenção era devidamente merecida.

O andar tinha tijolos de vidro, mas não tinha teto de vidro. O teto era normal. Mas tinha um mirante. Poucos tiveram a oportunidade, desobediência e espírito de aventura de ver os arredores daquele prédio por aquele mirante... Por aquele andar tinha-se acesso ao pátio, à secretaria e às salas de informática.

Aquele andar tinha bastante história. A história ia sendo feita e sendo destruída imediatamente, como ocorre ainda hoje. Só o que resta dela é o pouco que consegue permanecer sendo presente por meio da memória. A memória de aquele andar... Aquele andar ainda existe. Eu o vi com meus próprios olhos na semana passada. Ele estava tão gracioso e empoeirado como quando eu habitava aquele lugar. E sempre estará em nossas mentes, ainda que não passe de uma vaga lembrança.

Um andar em um corredor de um andar de um prédio sem começo, meio e fim. Um texto sem pé nem cabeça como sempre. Para que, afinal, um texto precisaria de um pé ou uma cabeça? As coisas continuam. O texto continua e o andar continua. Apesar de parecer que termina por aqui.

domingo, 14 de agosto de 2011

A fome.

Uma fome é algo no estômago. Mas não é só no estômago, porque não é só o estômago que se alimentará do que nós comermos. O estômago é semelhante a um sentinela que nos diz que não comemos faz tempo e algo deve ser feito. Mas ele não fala com palavras, não... ele vai muito além das palavras. Ele fala com sensações. As sensações extrapolam qualquer nível de interface de dados que se possa ser entendida com nossa mente. Seria quase tão volumosa a quantidade de informações como uma imagem, talvez um vídeo, porém muito mais incômoda...
A fome é uma sensação bastante incômoda que nosso estômago - sentinela do aparelho digestório - cria para nos avisar que algo está faltando.
"Estou com fome." Você pensa. Você não pensa com o estômago, não, você pensa com o seu cérebro: "ESTOU COM FOME" Ele diz. Ele te diz, mas não com palavras. Ele não fala. O que fala é a sua garganta com suas cordas vocais. Elas dizem: "...", pois enquanto se lê, não se fala, a menos que você esteja lendo isso em voz alta ou murmurando subvocações (vício que diminui a velocidade de leitura) relacionadas ao que se lê.
A fome está lá. Ela fica contínua por bastante tempo. E então a chegamos a pensar coisas como: "Vou fazer algo para comer, e depois disso vou comer o que fiz." E depois você REALMENTE vai la fazer algo pra comer e você REALMENTE come. Isso chega a ser sincero. E quantas vezes não pensamos: "Vou fazer X para depois conseguir Y" Latrocinando a verdade dos nossos sonhos?
A fome é algo que nos mobiliza. Se não fosse por ela não estaria aqui escrevendo essa jocosa e intrigante receita onírica de bolo de abacate. O que seira de nós se a fome não nos obrigasse a comer? Cadáveres??? Nem estaríamos aqui se assim não fosse... Depois da fome, vem a tontura. Isso se você não tem reservas de gordura suficiente. Por isso, se pensa em reclamar perto de mim daquela gordurinha localizada na sua barriga (sua vaca), eu, se fosse você, pensaria dez vezes antes de fazê-lo. Nunca passei da faze da tontura. Geralmente é ela quem me avisa que estou realmente com fome. Já me acostumei a ignorar as sandices sensacionais criadas pelo meu estômago vazio por estar pensando em algo mais interessante como... estar com fome. Já pararam para pensar sobre como isso é interessante? E é exatamente aí que acontece um momento mágico: Tudo é certo. Tudo faz muito sentido quando estou com fome escrevendo sobre a fome tão ensandecidamente que chego ao ponto de esquecer que estou com fome em nome da arte (ou seja lá do que você chamaria esse texto.) Acho isso um ápice da racionalidade acima de tudo. Ela me controla. Eu controlo ela. Ela controla minha fome. Eu não como só para sentir o gostinho de escrever sobre o que sinto. E sei que sinto apenas porque sou fruto de uma evolução. Se eu fosse um besouro estercoreiro, amaria a merda. Ela me fascinaria se eu pudesse pensar. A merda me faria feliz. Eu faria tudo por ela.
A fome nos faz fazer coisas que nunca pensaríamos. Chafurdaríamos na lama por causa dela! Mataríamos alguém por comida. Mataríamos alguém para comer! Mataríamos para matar a fome. Assassinatos duplos. Alguém tem que morrer, ou a fome ou eu, como sou egocêntrico demais, chego - e isso é sério - a julgar que a minha morte seria mais trágica do que a morte da
fome. "Gente, quem somos nozes para julgar que a nossa morte é mais importante do que a morte da nossa fome?" Ouvi alguém dizer. E eu digo o contrário. Digo, e é certo, que se não matarmos a fome ela morrerá junto com a nossa morte. Já que ela vai morrer de uma forma ou de outra, matamo-la comendo algo, sentindo prazer ao matá-la.
A fome é uma entidade sagrada. E nos a matamos! Todos os dias nos matamos! Será que não percebemos que a fome é importante demais para morrer? Enquanto isso, só posso pensar em coisas como: "Ela renasce das cinzas todos os dias e tornamos à executá-la com maior prazer. Este é o suplício eterno da fome... E seus suplícios de agonia mal podem ser ouvidos pelos ouvidos humanos..." ou "A fome é uma entidade dotada da não-vida, que seria algo como a vida passada por uma porta NOT. Quando a matamos estamos gerando vida." O que será que aconteceria se passássemos a fome e a vida como entrada para uma porta EX-OR e em seguida por uma porta NOT? Bom, essas são histórias para outros sábados des noites...
Em quanto isso, no outro lado da rua, um fanho chamando alguém de crioulo assim:
-Seu crioulo!